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02 A 11 JUNHO, 2021
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Habitar o fim, um fim qualquer e
irreversível, enquanto matéria para imaginar a construção de novos nexos, novas
lógicas de relação e de expansão do sentir. É esse o desafio enunciado na
abertura deste ciclo dos Festivais Gil Vicente, que pretende dedicar maior
protagonismo às novas gerações e à valorização de novas dramaturgias.
Abrimos expostos à desmontagem do tempo e do espaço através
de um dispositivo resgatado ao mundo – a tecnologia audiovisual – que nos impõe
a necessidade de decidir onde fixar a atenção. Os SillySeason trazem-nos “Fora
de Campo” possibilitando ao público vaguear pela construção de um imaginário
que dialoga, em permanência, com os acontecimentos em palco.
É, pois, nessa bifurcação entre o possível e o imaginário que
nos vamos aproximando de um novo fim em “Cordyceps”, obra erguida por Eduardo
Molina, João Pedro Leal e Marco Mendonça e instalada no último dia da
democracia que dará lugar a uma nova ordem onde já não será possível ter acesso
à cultura ou qualquer outra forma de expressão e pensamento livre. É, dizem
eles, provavelmente, o último espetáculo que terão oportunidade de ver.
Para não precipitarmos demasiado o fim, puxamos o filme um
pouco atrás e voltamos a debater os dilemas da democracia, para perceber se “A Fragilidade
de Estarmos Juntos” assinada por Miguel Castro Caldas, António Alvarenga e Sónia Barbosa,
nos dará a oportunidade de participar nessa geração de possíveis.
E porque nesta edição o tempo não é linear damos um salto
sobre os alertas para o fim dos tempos, para imaginar esse depois onde já
estaremos eventualmente livres do sentido de catástrofe, porque ele é
inteiramente fabricado por nós. Essa futura lavagem da toxicidade do presente que
nos cobre, ocorre em “Memorial” de Lígia Soares.
E nesta audaciosa viagem sobre o fim enquanto matéria para se
lançar outros começos, não poderia faltar um pouco de intensidade e drama.
Esses ingredientes encontram-se em “OFF” da Mala Voadora, mas: um espetáculo
sobre o fim é, afinal de contas, um espetáculo que se sabe como acaba. E como
nada há para inventar temos todo o tempo para festejar.
Depois do fim ou dos vários fins, Tiago Lima aproxima-se e
diz: “Ainda estou aqui”. Um fósforo acende-se, a música entra, chega ao palco e
um concerto começa.
Será o fim um falso intervalo das coisas vulgares?
Rui Torrinha